Mestre Ambrósio - Fuá na casa de cabral [1998]

qui, 27/08/2009 - 13:48 — Pedroneto01
Ano: 
1998
Gravadora: 
Chaos/Sony Music
Audio BitRate: 
192 KB/s

Em seu primeiro press-release, divulgado antes mesmo do lançamento do primeiro disco, o Mestre Ambrósio declarava: “a proposta do grupo é trabalhar, de uma forma atualizada, a sua musicalidade nordestina”. Essa parecia ser a palavra de ordem da ebulição musical e cultural que tomava conta do Recife: atualização. Restava saber como cada banda iria realizar esta tarefa: conectar as diferentes tradições sonoras do Nordeste brasileiro com a linguagem do etnopop global, agora já transfigurada pela tecnologia/filosofia digital.

O pessoal mais ligado ao movimento mangue optou por uma estratégia de radical estranhamento (de tudo e de todos). Era como se trabalhassem “de fora”, não escolhendo de início uma base nordestina e/ou um ponto de vista internacional a partir dos quais suas combinações de ritmos e estilos (rap e
maracatu, coco e dub) seriam produzidas. Já a opção do Mestre Ambrósio estava clara desde o princípio: era “de dentro”, do mais profundo conhecimento dos mestres brincantes do Nordeste, que o grupo iria desenvolver seu ataque pop.

As duas opções se equivalem, uma não é melhor que a outra, mas os resultados e métodos de trabalho – apesar dos objetivos comuns - são diferentes. No seu primeiro disco, o Mestre Ambrósio se inseria tão completamente nas “linhas evolutivas” de brincadeiras como o cavalo-marinho, o maracatu-rural ou o forró, que muitas vezes era difícil para o ouvinte perceber o que havia de diferente entre o que estava gravado e o que se pode escutar numa festa tradicional da zona da mata pernambucana. Em Fuá na casa de Cabral, essa dificuldade desaparece e a proposta do Mestre Ambrósio pode ser entendida claramente.

Não há nenhuma mudança de rumo ou estratégia. Há aprofundamento e amadurecimento das idéias anteriores. Os exemplos das canções do primeiro disco que foram regravadas neste Fuá tornam evidente o domínio que o Mestre Ambrósio ganhou sobre vários estilos da música nordestina, conquistando liberdade para fazer o que quiser com eles, mas sem precisar utilizar o recurso fácil de colocar uma bateria eletrônica tecno “em cima” para “modernizar” o tradicional.

Zé Limeira, o maracatu-rural que no disco anterior duelava com uma guitarra elétrica, agora ganhou uma viola nordestina (sublinhando o tom repentista do samba-curto do vocal) tornando o resultado, ao contrário do que se poderia esperar, mais ousado e mais moderno (e ao mesmo tempo, o que é uma
vitória e tanto, mais compreensível – não digo aceitável - para radicionalistas).

Só quem está muito “por dentro” do maracatu rural pode propor um “baque” como esse, tão heavy. O Fuá todo é heavy. Mas não no sentido óbvio que o pesado pode ter. O segredo (e o acerto, e a novidade) está no método de produção. O desafio era não partir do sampler, não por nada contra o
sampler, mas para testar um caminho diferente. As músicas foram gravadas em regime quaseacústico, quase-rural, quase pré-digital.

Só depois dessa primeira fase é que todos os recursos computadorizados do estúdio entraram em cena, rearticulando o material gravado, amplificando
detalhes, mixando o resultado da maneira menos convencional possível.
Então cada faixa faz o ouvinte, junto com o Mestre Ambrósio, reavaliar seu conhecimento sobre a tradição musical nordestina, e impulsioná-la para o imprevisível. Caboco é maracatu-rural no carnaval de Olinda, acentuado por uma guitarra que tanto pode ser classificada como zairense quanto como repentista, com vantagens para ambos os lados.

Em Fuá na casa de Cabral, a batida de forró ganha marcação de merengue. Em Semen, a cantoria cai na batucada; em Vó cabocla o caboclinho cai no cavalo-marinho; em Esperança, a guitarra faz o papel da rabeca para juntar-se a
vocais de toré de índio caatingueiro e a uma gaita de caboclinho altamente progressiva. Já Pescador é uma ciranda da Jamaica, Chamá Maria é um forró dos Balcãs, e Pedra de Fogo é um samba de Cabo Verde.

A fala do Mestre Ambrósio, após a faixa de abertura do disco, deve ser escutada como uma carta de intenções: “vivo no mundo comprando, vendendo, trocando figuras.” O Mestre Ambrósio, na brincadeira do cavalo-marinho, atua como um Hermes, um Exu, um ministro das informações, um
mestre das comunicações entre as várias personagens/figuras, entre os brincantes e o público, entre as várias brincadeiras, mostrando como tudo está conectado.

A música de Fuá na casa de Cabral realiza a mesma façanha. Do mais profundo do Nordeste, para o mundo, e de volta, e para todos os lugares novamente. A brincadeira é heavy e não tem fim. Ninguém pode com um fuá deste calibre.

Hermano Vianna
1999

Lista das Músicas: 

01. Trupé (Queimar carvão)
02. Os caboclos
03. Fuá na casa de Cabral
04. Sêmen
05. Vó cabocla
06. Pareia
07. Esperança
08. Pescador
09. Chamá maria
10. Pé-de-calçada
11. Usina (Tango no mango)
12. Se Zé Limeira sambasse maracatú
13. Pedra de fogo
14. Maria Clara


Artepaiva
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esse é pra colecionar!!!!

uma obra de arte da música pernambucana!
esse é pra ter na coleção!!!

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